(De: Saúde mental na pandemia – 67)
Como no ditado – “Não há bem que não se acabe e não há mal que dure para sempre”.
Felizmente, a vida é dinâmica: Está horrível, e aí fica pior. Está tranquilo, fica ótimo e melhora ainda mais. E segue mudando assim por diante…
Passamos por fases; coisas acontecem dentro de nós, com os que amamos, na economia, na política, mundo afora, e vamos reagindo, nos adaptando e também nos transformando ao longo do processo.
Natural, normal, tudo bem. É assim que funciona mesmo.
Entretanto, há momentos em que enfrentamos dificuldades muito grandes- individualmente ou no ambiente mais amplo, e nestas ocasiões a alienação parece tentadora.
Entrando em curto-circuito- situação que muitas vezes antecede um incêndio- escapar, se distrair e distanciar, pode até ser uma boa estratégia para poder seguir em frente.
Neste caso, não se trata de alienação ou fuga, mas de parada providencial; uma pausa, para respirar um pouco antes de retomar a batalha. Parar, descansar e carregar as baterias para retornar. Muitas vezes isto é necessário para recobrar o fôlego.
Porém, se distanciar repetidamente dos problemas e constantemente “varrer para debaixo do tapete”, é uma ilusão para dizer o mínimo.
É compreensível que alguém resista a enfrentar problemas complexos, momentos difíceis, situações duras. Porém, ignorar sua existência não os faz desaparecer. Pelo contrário.
Pensemos em uma ferida profunda ou doença grave que não limpamos nem tratamos. O que acontecerá? Vai se curar naturalmente?
Improvável…
São como aquelas contas que alguém não paga: o cartão de crédito vem no valor X, mas você pode pagar aquele mínimo e deixar rolar a dívida. É uma despressurização momentânea, mas no próximo mês a conta virá ainda mais alta, com juros acrescidos ao valor pendente.
Contas não pagas virão com multa, mora e taxas. Questões não resolvidas voltarão em repetições e novos/velhos problemas.
Ou seja, aquilo que evitamos encarar e enfrentar fica mal armazenado e volta a nos assombrar, com os mesmos pontos que se repetem, aparecendo até de forma mais sutil: lembranças, sonhos, imagens, dificuldades no dia a dia.
Varremos para debaixo do tapete e nos desfocamos do problema. Afastado, ele já não perturba mais. Alívio ! Passou !!
Só que não…
Tudo aquilo que evitamos e empurramos para frente se acumula. Não lidar com determinado problema ou dificuldade pode postergar o enfrentamento, mas não o elimina. Além disso, adiar pode aumentar a ansiedade e reforçar nossa “certeza” de incapacidade ou fragilidade.
Dizemos com frequência: “Quero sair desse rolo/dificuldade/lugar”.
É incômodo e perturbador ver que novamente tal situação se repetiu ou que, mais uma vez, você está em posição complicada. Porém, por mais desconfortável que seja, é justamente neste ponto que a necessidade de encarar o problema se confirma.
Só é possível sair após entrar. (Isto é, para sair, é necessário entrar primeiro.)
Como você pode sair “do buraco” sem ter entrado ali ?!?
Uma bala perfura o corpo. É necessário um corte para retirá-la. Há um tumor em um órgão. É preciso abrir para remover e limpar. Uma experiência horrível, trauma ou sofrimento emocional acontece. É necessário reviver, lidar com ele e falar sobre para elaborar e resolver.
E isto dói, machuca e faz sofrer.
Sem dúvida.
E ninguém deseja sentir dor.
Porém, são dores terapêuticas no sentido literal: de limpeza, cuidado e tratamento para possibilitar a cura. De qualquer que seja o mal- físico ou emocional.
Vivemos uma Pandemia há perto de um ano e meio. Tragédia na saúde física e mental, na economia, graves prejuízos sociais, só para citar o básico.
Para uns foi concretamente dramático: perderam entes queridos, trabalho, condições de vida. Para outros foi diretamente menos danoso, mas desesperador em outros aspectos. Mas, para ninguém (repita-se) com idade e condições cognitivas de compreensão, foi trivial.
O sofrimento foi, e segue sendo, massivo. Há melhoras e luz no fim do túnel, com a vacinação acelerada e cumprimento das medidas de segurança e proteção.
É uma realidade clara demais para ser varrida para debaixo do tapete. Foi falando abertamente sobre o vírus, estudando a realidade das consequências e condições, que se pôde chegar, não somente ao desenvolvimento de tantas vacinas, mas também às medidas de ajuda aos doentes, desfavorecidos e em risco físico, mental e econômico.
Somente encarando um problema teremos ideia clara de a sua dimensão, possibilidade de resolução, diminuição de danos e previsão de segurança.